Margot é a capa da revista do site de variedades Deadline desta semana e em uma longa entrevista ela compartilha seus pensamentos sobre Tonya Harding, seu novo filme sobre a patinadora I, Tonya e mais! Confira:

Tem sido uma ascensão vertiginosa para Margot Robbie, desde a novela australiana Neighbours até Hollywood, com papéis na série de TV Pan Am e no filme de Martin Scorsese O Lobo de Wall Street. Mas ela verdadeiramente se anuncia como atriz com talento, e uma chance de medalha nesta temporada de premiações, com I, Tonya. No filme dirigido por Craig Gillespie, Robbie dispara como a patinadora olímpica marcada pelo escândalo, Tonya Harding. Ela transforma a figura histórica difamada pelos tablóides em uma anti heroína injustiçada, que mandou dedo do meio para os juízes quando eles ignoraram suas habilidades físicas superiores e se opuseram a ter Harding como a imagem de seu esporte.

Pressionada quando criança por sua mãe tão miserável com elogios quanto generosa com tapas de mão aberta (interpretada hilariamente por Allison Janney), a história de Harding pertencia anteriormente aos cães de caça de fofoca dos tablóides. Apesar de ganhar o campeonato americano em 1991 quando ela se tornou a primeira mulher a ter sucesso no salto triplo, o lugar de Harding na história do esporte é uma desgraça por conta de sua possível cumplicidade na tentativa desastrada de seu ex-marido abusivo Jeff Gillooly (interpretado por Sebastian Stan) de estropiar sua elegante rival Nancy Kerrigan antes das Olimpíadas de Inverno de 1994. Harding foi banida do esporte para sempre pela Associação Americana de Patinação, após ser declarada culpada por não impedir o ataque em Kerrigan.

Apesar da série de papéis que seguiram Lobo – tal como sua vez como Harley Quinn, o ponto brilhante de Esquadrão Suicida, que ela irá reprisar nas sequências – I, Tonya é o primeiro filme a se apoiar somente nos ombros de Robbie. Ela mergulha na interpretação de uma mulher sem glamour, pobre e desafiante, que costurava suas próprias roupas e aplicava sua própria maquiagem (cruelmente) para o esporte em que acreditava. E Robbie captura a intensidade assustadora – e a tragédia – da personagem que interpreta. É esse tipo de entendimento de personagem que instigou Quentin Tarantino a perseguir Robbie para o papel de Sharon Tate em seu próximo filme, e isso a coloca diretamente nas conversas sobre o Oscar esse ano.

O ouro pode ter escapado de Tonya Harding no gelo, mas ela pode ter mais uma chance na noite do Oscar.

I, Tonya segue a tradição de comédias de humor negro como Fargo e Um Sonho Sem Limites, com momentos como o que experienciamos em Fargo, que provoca risadas quando Steve Buscemi está se alimentando por meio de um cortador de madeira, e então mais tarde você se pergunta se há algo seriamente errado com você. Tonya Harding, sua mãe, seu marido e seu comportamento nos dão momentos absurdamente divertidos, justaposto a imagens da patinadora sendo agredida por aqueles próximos dela. Como o salto triplo, há um grande grau de dificuldade nisso.
É definitivamente obscuro. Allison Janney consegue colocar bem. Ela diz, “É como rir na Igreja quando você sabe que não deveria, e então você pensa, ‘Que tipo de pessoa eu sou para achar isso engraçado?” O filme tem esses momentos.

Esse filme lança de uma vez por todas a sua produtora LuckyChap. Como você se envolveu nesse nível?
O roteiro de Steven Rogers ainda não tinha ido para a Black List quando me enviaram, e Craig Gillespie não estava comprometido como diretor. Estava disponível e nós lemos rapidamente, por volta da mesma época que o produtor Bryan Unkeless. Nós tentamos conseguir uma reunião com Steven e ele disse que Bryan tinha acabado de embarcar na ideia. Isso foi ótimo porque nós sempre co-produzimos, nós somos uma empresa jovem e não somos grande o bastante ainda para produzir algo sozinhos. Então eu sentei com Steven e Bryan e mostrei para ele porque eu deveria, A, interpretar Tonya Harding, e B, produzir também. Essa conversa foi incrível e então falamos sobre como vimos o roteiro e os desafios potenciais porque há muitos.

Quais foram os maiores?
Era muito incomum. Não havia uma estrutura tradicional. Eu fiquei tipo, “Qual é o tema? Precisamos andar na rota ou encontrar outras? E quem pode andar?” Poucos diretores podem fazer isso, o tom é muito específico. Você tem o documentário engraçado, a comédia de humor negro, eventos da vida real e pessoas da vida real. Há problemas legais com pessoas que estão vivas. Você tem um evento que as pessoas se lembram e possuem sentimentos muito fortes sobre. Todos já decidiram como eles se sentem sobre essa pessoa. Você quer mudar a mente das pessoas, e se fizer, como você quer que seja? O orçamento é de filme independente, é de época, e inclui Jogos Olímpicos. Todas essas coisas somam em algo muito caro. E com algo tão fora do comum, você nunca vai tirar muito dinheiro dos financiadores para fazer o filme. Isso tudo, e as cenas de patinação, e o fato de que ela envelhece, começando aos 15 anos até os 44.

E 44 com muita bagagem. Você acabou de fazer 27?
Sim. E você pode contratar atrizes diferentes para fazer as idades diferentes, mas as pessoas vão investir a emoção na pessoas que elas veem na tela, então você realmente só quer escolher uma atriz para interpretá-la, o tanto quanto possível. Então essas foram as complicações lógicas. Mas o roteiro também lida com violência doméstica. Como você lida com isso apropriadamente? Na minha opinião, se você não lida com isso apropriadamente, você não está fazendo justiça a situação.

O que você quer dizer com “lidar”?
Suavizar o problema não é lidar com ele corretamente. Mas usar isso como roteiro para entretenimento pode ser ruim e também não é apropriado. Então, houveram preocupações, e áreas que precisávamos ter certeza que estávamos fazendo certo. Mas a vantagem era que o céu era o limite. Era muito bom. Esses personagens são incríveis, tão cheios de erros, e ainda assim você cria empatia por eles de um jeito estranho, e você pode se ver neles algumas vezes. Era uma oportunidade real de surpreender as pessoas, o que para mim tem sido o maior dos elogios, quando alguém chega para mim e fala, “Eu estou tão surpresa de ter sentido isto. Estou chocada que eu amei.” Todos ficam dizendo, “Eu pensei que eu não ia gostar e eu amei.” Essa possibilidade é o que eu vi no roteiro, a vantagem de surpreender as pessoas assim. As pessoas não viram um filme assim antes, e eu pensei que se conseguíssemos fazer isso, seria original. E então procuramos um diretor que lidaria com essas coisas sensíveis corretamente. A busca foi longa e não sei se teríamos prosseguido sem o Craig. Eu lembro de dizer, “Se não acharmos o diretor certo para isso, nós não deveríamos fazer.”

Ele dirigiu um filme independente completamente original chamado A Garota Ideal. Por que ele?
O que o destacou foi que ele falava sobre os personagens com zero julgamento. Todos os outros pareciam julgar. Você podia dizer quando as pessoas falavam sobre os personagens que eles pensavam que eram estúpidos, um lixo. Eles pensaram que eles eram engraçados, claro, mas estavam julgando. Craig não os via desse jeito, ele realmente queria sentir empatia por eles, queria entendê-los. Ele trouxe muitas soluções técnicas. Com esse roteiro em particular, ter o tom e alcançá-lo era muito importante. O tom pode ser tão intangível que é uma conversa que pode dar voltas e todo mundo pode dizer, “Bom, eu acho que deveria ser assim.” É muito difícil articular como você executaria isso. Ele realmente tinha soluções quando nós perguntávamos. “Ok, nesse momento eu cortaria para uma tomada longa. Eu não daria deixa para a música influenciar o público no que sentir. Eu os faria desconfortáveis aqui, pela quantidade de batidas, até que essa fala aconteça.” Ele entrou com soluções concretas para esse enigma que estávamos tendo dificuldade. E também, ele trabalhou por muito tempo no mundo comercial.

Por que isso foi importante?
Uma de nossas maiores preocupações foi que iríamos filmar muito em pouco tempo e com pouco dinheiro. Isso é difícil de conseguir, mas ele trabalhou tanto tempo no espaço comercial que sabíamos que ele iria conseguir filmar bem rápido para que ele pudesse ganhar tempo com as partes realmente importantes. Eu o perguntei quais partes ele considerava as mais importantes, e do jeito que ele falou na nossa primeira reunião foi exatamente o que tivemos no set. Ele conseguia filmar tanta coisa em um dia e eu nunca me senti apressada como atriz. Nós estávamos literalmente correndo de um rinque de patinação para o outro para conseguir a próxima tomada. Mas ainda assim, eu nunca me senti apressada, porque os momentos que realmente importavam, nós passamos muito tempo fazendo. Os momentos de cada personagem e a chave de cada relacionamento. Eu nunca senti que não deixamos pedra sobre pedra quanto a isso. E nós terminamos a tempo.

Muitos de nós lembram da rivalidade Tonya Harding – Nancy Kerrigan vividamente. Era uma novela, se desenvolvendo a cada dia. Eu lembro de Harding como uma caipira cafona, a vilã nesse drama. Ao assistir I, Tonya, me surpreendi com a simpatia que senti por essa menina e suas dificuldades. Qual foi a chave para interpretá-la como uma personagem simpática, sem comprometer sua resistência?
Essa é a coisa. Nós nunca quisemos que ela fosse a vítima. Ela definitivamente é a vítima do julgamento de todos. Ela é vítima de abuso. Mas nós não quisemos que ela se sentisse como vítima e nem como vilã. Quisemos que ela fosse uma pessoa. Desse jeito, todo mundo pode se relacionar com ela, porque no final do dia, bom ou ruim, nós somos apenas pessoas. Eu acho que o que aconteceu com aqueles áudios de seis segundos e manchetes chamativas – e a caricatura literal desenhada dela – foi que todos esqueceram que ela era uma pessoa no final de tudo. Todos julgaram tão rapidamente sem perceber que também estavam destruindo a vida dela. Craig foi uma das primeiras pessoas a dizer, “Nós precisamos vê-la batendo no Jeff também.” Ela conseguiu devolver. Literalmente, ela conseguiu devolver também. Ela é uma pessoa resistente.
Nós filmamos um final diferente para o filme. O final verdadeiro é que agora ela está em um bom casamento com um marido adorável, ela tem um filho, que ela adora mais do que qualquer coisa no mundo. Nós filmamos um final que refletia o verdadeiro final da história. E eu acho que não pareceu certo ou satisfatório, chegamos a conclusão de que ela é uma pessoa resistente. O que filmamos ao invés disso foi uma sequência de boxe porque ela se tornou uma celebridade boxeadora e depois se tornou uma boxeadora amadora.

Por que esse foi melhor?
A mensagem que queríamos que ficasse no final era, você pode derrubá-la, mas ela vai se levantar novamente. Não importa quantas vezes você a derrube, ela vai se levantar, seja a vida, sua família, seu marido, sua mãe, a mídia, quem quer que seja, ela vai se levantar. Esse é o motivo pelo qual queríamos simbolicamente vê-la caindo e se levantando novamente, o que é a última imagem do filme.

Seja como a esposa troféu Naomi LaPaglia em O Lobo de Wall Street ou Harley Quinn em Esquadrão Suicida, você precisa encontrar qualidades nos personagens que você interpreta que os conecta com você, seja com pessoas que você cresceu ou família? O que você achar mais relacionável com Tonya Harding?
Eu tive a mesma dificuldade quando estava interpretando minha personagem em O Lobo de Wall Street porque no roteiro ela era sempre uma personagem irremediável que parecia uma golpista. Demorei para entender pelo o que ela lutava e o que a motivava a conseguir o que ela queria. No roteiro, parecia que ela só queria dinheiro, e isso não é algo que vale a pena lutar. Então eu mergulhei na personagem e comecei a construí-la e percebi que, ela é uma mãe. Ela tem filhos e seu marido é viciado em drogas. Seus filhos estão em perigo. Então ela está lutando por eles.
Aquele grande momento no final, onde nós acabamos reescrevendo toda a sequência, veio quando eu pedi pelo divórcio. Para mim, tudo o que ela fez antes das crianças, foi tipo, “Foda-se. Eu vou pegar o que eu quero. Se a vida me der limões, eu vou fazer uma limonada de qualquer jeito, e por que não? Os caras estão fazendo isso, por que não posso? Claro que não tenho dinheiro, mas eu sei o que eu tenho, e eu vou conseguir com isso.” Esse foi um bom incentivo por um tempo. Mas quando se tratava das crianças, eu realmente tinha algo para lutar. Era proteger seus filhos.
Com Tonya, havia tanta coisa que eu conseguia entender sobre ela. Eu já estive em cenários com outros personagens onde eu senti, “Eu não sei o que eu gosto sobre essa personagem.” E então eu encontrei. Com Tonya, eu foquei no fato de que ela era atleta e deslocada. Eu achei isso muito fácil de entender. Eu amo assistir filmes de gângsters, onde eles são essencialmente variações de deslocados chegando ao topo. Há algo lá que você consegue entender. Ela realmente era uma atleta, uma patinadora incrível que não estava tendo reconhecimento por causa de todas essas regras ridículas que na opinião dela, não deveriam importar. Eu concordo com isso. O fato de que ela não conseguia nota, mesmo sendo a única a ao menos tentar o salto triplo, só porque ela não tinha uma roupa de cinco mil dólares, era ridículo.
Eu entendo sua ambição. Eu acho que posso entender seu relacionamento com o Jeff em alguns aspectos, porque Sebastian o deu muitas faces. Ele não era apenas um vilão, um cara ruim. Eles se divertiam juntos também. Eles estavam apaixonados. Ela estava constantemente procurando por validação e ele foi o primeiro a dar isso para ela de um certo modo. Novamente, esse ciclo inteiro de abuso prejudica as coisas, porque em um ponto você realmente quer que ela se afaste dele. E o juíz da patinação diz a ela que ela precisa ficar com ele.

Ela foi criada com abuso, uma mão pesada e falta de aprovação, um ciclo que começou com sua mãe, que entregou o bastão para Gillooly. Há evidências de que crianças que foram abusadas procuram uma versão de seu abusador em relacionamentos.
Eu já li isso também. Uma das características para essa personagem – não a verdadeira Tonya e sim a personagem que eu interpretei – era que eu queria que ela estivesse sempre procurando por aprovação porque ela nunca conseguiu. Sempre que eu estava sentada, eu queria estar inclinada para frente, o que era a pose em que eu ficava quando estava esperando pelas notas. Sempre procurando por aprovação, da minha mãe, do Jeff, do mundo, da mídia, de qualquer pessoa. Apenas desejando por amor.

Você disse que não sabia quem era Tonya Harding quando você leu o roteiro. Como não ter esse pré conceito sobre ela te ajudou?
Eu sou tão grata que eu não sabia nada sobre isso. Porque quando eu entrei nisso, Tonya era um prato limpo. Eu sei que ela não vai ser para a maioria das pessoas porque parece que todo mundo lembra. Eu fico muito feliz que não sabia sobre os eventos ou as pessoas. Eu nunca tinha escutados os nomes e não sabia sobre o mundo da patinação em geral.

Você não assistiu as Olimpíadas de Inverno na Austrália?
Não. A patinação não. Eu já assisti aqui e quando estava lá, mas não era algo que eu acompanhava de perto.

Para o resto de nós, Nancy Kerrigan era elegante e glamourosa, e a única que deveríamos ter pena quando ela foi atacada. Tonya era grossa, e o filme mostra o motivo, já que ela costurava a própria roupa e fazia uma maquiagem que só a deixava mais grossa ainda. Eu entrevistei Charlize Theron quando ela terminou Monster. Mesmo antes do Oscar, foi fácil ver que interpretar uma serial killer vítima de abuso foi libertador para ela, uma chance de mostrar que ela era mais do que beleza. Ela disse que naquela idade havia muitas mulheres que como ela davam tudo como atrizes ou sumiam enquanto alguém mais nova e mais bonita conseguia os papéis. Ela sabia que Monster era importante para a vida longa. Qual foi a oportunidade que você viu em poder entrar em uma personagem sem glamour e com imperfeições? O olhar em seu rosto algumas vezes era muito intenso. Após interpretar mulheres glamourosas em Pan Am e O Lobo de Wall Street, o quanto de oportunidade você viu em ficar sem glamour?
Eu sei o que você quer dizer. Não é o primeiro papel que eu interpretei onde não precisei parecer glamourosa e também não é de longe o papel mais sem glamour que já interpretei. Eu entendo o que você quer dizer, mas para esse filme, eu não senti como, “Preciso de um papel sem glamour e riscar isso da minha lista.” Eu já tinha feito isso antes, eu acho, mas eu sinto que muitas pessoas possam ver esse.
Esse filme realmente não foi sobre a oportunidade de ter meu momento Monster, apesar de muitas pessoas falarem isso. Eles ficam tipo, “Esse é o seu momento Monster.” E eu fico, “Oh, eu não vejo desse jeito. Deveria ficar ofendida ou lisonjeada?” Eu já interpretei papéis sem glamour antes. Em Suíte Francesa, eu estou com um cabelo afro castanho, meus dentes foram pintados de amarelo, e a minha pele estava toda manchada e eu estava usando avental durante o filme inteiro. Isso não é glamour. Em Os Últimos na Terra, eu tinha cabelo escuro, e colocaram muitas sardas no meu rosto, e eu tinha uma pele bem ruim na época, o que era perfeito porque ela era adolescente com sujeira por baixo das unhas, roupas largas e esse tipo de coisa.
Eu fiz Os Últimos na Terra um pouco depois de O Lobo de Wall Street. Então, pareceu mais importante fazê-lo porque eu não estava estabilizada ainda e eu tinha feito O Lobo de Wall Street e todo mundo estava com aquilo na cabeça. Então os papéis que as pessoas me ofereciam era mais velhos, glamourosos, e todas essas coisas. Então, eu fiquei tipo, “Ok, preciso ajustar a ideia que as pessoas possuem de mim porque eu sou mais nova do que o papel que eu estava interpretando.” No começo de Lobo ela tinha 22 anos e eu tinha 22 na época. Então obviamente eu interpreto até ela ter filhos. Em Os Últimos na Terra tive a chance de não ser glamourosa por completo. Esse foi um roteiro que eu corri atrás por um ano e meio, realmente para trabalhar com Craig Zobel. Isso tudo terminou bem.

Eu não queria soar superficial. Para mim, assistir Monster me fez perceber o quanto Theron estava disposta a se comprometer, e houve essa descoberta com você interpretando Harding e me fazendo me importar com ela.
É um grande passo para mim. É o primeiro filme em que eu interpretei um papel principal, o papel principal em um filme onde o nome dele também é o nome da minha personagem. Eu nunca fiz isso antes. Eu era Jane em Tarzan, e eu não estava em O Lobo de Wall Street, era o Leo. Esse foi um grande passo para a minha carreira. Esse foi o primeiro filme que eu realmente senti todo o peso nos meus ombros.

Que valor você conseguiu tirar de conhecer Harding enquanto você estava se aproximando da personagem?
Não havia nada específico. Eu não a conheci até uma semana antes de começarmos a filmar. Até lá, eu já tinha feito toda a minha preparação, por seis meses, e todos os treinos de patinação. Eu tinha tomado todas as minhas decisões sobre como eu iria interpretá-la, fiz todas as anotações no roteiro, fiz toda a obra na personagem, minha linha do tempo, minhas pesquisas. Eu trabalhei com meu professor de atuação e meu coreógrafo, e eu a assisti de perto. Eu acho que assisti cem vezes cada vídeo dela que existe. Eu a escutava para dialeto e eu sabia exatamente como eu ia interpretar cada cena, antes de conhecê-la. Eu queria ter certeza de que eu tinha feito todas as essas decisões antes porque eu não queria conhecê-la e sentir a obrigação de suavizar qualquer coisa. Quando eu a conheci, eu não alterei o jeito que eu a estava interpretando. Não houve uma coisa nela que me fez mudar o jeito que eu estava a interpretando. Eu já tinha decidido.

Então por que conhecê-la?
Eu apenas queria conhecê-la, apenas como pessoa, e por respeito porque eu estava contando sua história. Eu queria dizer para ela, “Eu estou interpretando uma personagem. Para mim há uma distinção clara entre você e a personagem Tonya, e eu queria que você soubesse disso. Então, quando você assistir ao filme, espero que seja mais fácil.”

Qual foi a reação dela ao filme?
Eu estava nervosa quando ela viu o filme em Toronto, mas eu estava nervosa para qualquer pessoa assistir. Isso foi antes de Toronto. Poucas pessoas tinham visto e eu estava com medo de saber até se acharam um bom filme, mas especialmente preocupada com ela. Eu não sabia que tipo de experiência emocional poderia ser para ela ver o pontos mais altos e os pontos mais baixos de sua vida em um filme de duas horas.
A parte onde eu digo “chupa o meu pau” para os jurados? Ela achou isso hilário, e disse, “Deus, eu queria ter dito isso na época.” Eu acho que foi emocionante para ela assistir. Ela disse que riu e chorou e obviamente algumas partes ela não concordou, porque em certos momentos nós contamos a história da perspectiva de outros personagens.

Ela discordou da recriação do ataque em Kerrigan ou a representação da violência doméstica?
Ela disse que tudo estava certo. Ela sentiu que sua mãe estava certa. Os relacionamentos foram muito verdadeiros para ela. A cena onde sou cúmplice de saber sobre as cartas [mandadas para ameaçar Kerrigan, antes do ataque]? Ela não concorda com essa porque ela mantém até os dias atuais que ela não sabia nada sobre isso. Na versão do Jeff, ela sabia sobre as cartas. Em algumas partes do filme estamos vendo a versão do Jeff sobre os eventos e nesse caso eu tenho que interpretar uma personagem que sabe sobre as cartas. Ela não concorda com isso. Nesses momentos, ela disse, “Eu não sabia sobre as cartas.” E eu fiquei tipo, “Eu sei, mas não vamos falar sobre isso de novo. Estávamos fazendo o ponto de vista do Jeff.”

Ela não pediu para você mudar nada?
Não, ela entendeu. Nós deixamos bem claro desde o começo que nós não estávamos fazendo um documentário da vida dela. Isso já existe. Isso é um filme, você precisa ficar com isso na mente. E ela foi ótima.

Qual foi o propósito de todo o treinamento de patinação? Esses atletas treinam desde criança e é um pouco perigoso.
Eu queria que parecesse natural para mim e não era natural para mim. Foi algo que eu realmente tive que dar duro. Eu acho que a parte mais difícil foi vender que o lugar mais confortável do mundo para mim era no gelo, quando eu, como Margot, acho o lugar menos confortável porque eu tenho pavor de não ser boa o bastante e de que vou me machucar e arruinar a agenda de 31 dias de filmagens.

Como você superou isso?
Uma amiga minha é atleta. Ela é ciclista. Eu perguntei a ela sobre como as pessoas se preparam psicologicamente para eventos de competição. Eu estava com tanto medo de cair, me machucar e arruinar o filme. Ela me ajudou com esse tipo de coisa, me dando palavras positivas, tirando os pensamentos negativos, e visando o que você vai fazer antes de fazer. Todas essas coisas que ciclistas profissionais ou atletas precisam fazer. Isso ajudou muito. E além disso, eu treinei bastante. E uma vez que você cai feio e percebe que não vai quebrar um osso todas as vezes que isso acontecer, fica mais fácil e você fica confiante. A patinação no gelo foi bem difícil.

Eu vi o filme na premiere de Toronto, que estava cheia de compradores. O quanto você se sentiu como Harding, esperando a nota dos jurados após uma apresentação?
Essa é uma perfeita analogia. Eu era a Tonya esperando, sentada inclinada para frente apertando as mãos, esperando pela minha nota. Eu estava apavorada. Eu nunca estive tão nervosa para um filme ser visto em toda a minha vida. Eu nunca tinha carregado o peso de um filme antes e um em que eu produzi também. Não havia mais ninguém para culpar se não fosse recebido bem, seria minha culpa. Provavelmente foi ainda melhor quando foi bem recebido. Foi o melhor sentimento do mundo.

O público amou. Os distribuidores lutaram por ele e o negócio foi fechado com a 30WEST e Neon. Você conseguiu dizer para eles que aquele era o corte final e que eles tinham que estrear antes do fim do ano para a temporada das premiações?
A reviravolta foi rápida, e nós não tínhamos tempo de abrir o filme e reeditar de qualquer jeito, e se as pessoas quisessem fazer isso, não ia funcionar. Felizmente havia um distribuidor que concordou com o que queríamos e foi capaz de entregar isso.

Você tem a oportunidade de expandir no cinema a tempo das Olimpíadas de Inverno.
Outro motivo pelo qual nós estávamos empurrando para o final do ano. Nós não vamos conseguir um tempo tão perfeito assim novamente. Olha, nós sabíamos que juntar todo o marketing e os planos de distribuição em pouco tempo é insano, mas tudo nesse filme foi desse jeito. Nós debatemos isso. Deveríamos esperar até a próxima rodada de festivais? Eu lembro de dizer para todos, “A beleza desses personagens e dessa história, a beleza desse filme, é que tudo é bruto. É assim que somos. Nós somos desconexos, imperfeitos e brutos. E se nós tivermos oito meses para fazer uma campanha perfeita e limpa, não vai ser fiel ao filme de nenhuma forma. Queremos fazer isso do jeito certo, mas quanto menos tempo tivermos para pensar no nosso plano de marketing, é menos provável que vamos arruinar tudo por pensar demais. Eu digo para abraçarmos o desconexo, o fato de que somos brutos, e deixar nossa campanha de marketing refletir isso.”

Eu cubro a Comic-Con de San Diego. A maioria das mulheres, e muitos homens, se vestem ou de Mulher Maravilha ou de Harley Quinn, sua personagem em Esquadrão Suicida, e quem você irá interpretar em uma sequência e em um spin off com o Coringa do Jared Leto, e outros possíveis filmes. Você acertou algo com essa personagem. Por que ela tem tantos seguidores se ela é tão louca? Não quero que isso soe como um insulto.
Não, ela é louca. Ela é louca e ela é formada em loucura, o que a torna mais insana ainda. Eu não sei o que é e eu estou tentando entender o que ela tem que as pessoas amam tanto há um anos. Eu já entrei em vários fóruns de fãs para tentar encontrar uma resposta para essa pergunta e as pessoas parecem realmente fixadas em o quanto ela ama o Coringa. Ele é abusivo e está sempre tentando matá-la, mas ela o ama incondicionalmente. É um relacionamento super destrutivo, mas as pessoas amam que ela o ame tanto. Eles a amam por ela amar tanto a ele. E mais, ela é super inteligente e engraçada e todas essas ótimas qualidades, mas ela é uma bagunça. Eu acho que é por isso que a amam tanto. Ela é uma linda bagunça. Eu acho que é por isso que as pessoas gostam de personagens com tantos erros. Ela é cheia de erros e as pessoas gostam disso.

Uma linda bagunça não seria uma descrição ruim para a Tonya.
Sim, totalmente. Mas todo mundo é bagunçado. Eu não quero interpretar uma personagem que não seja. É mais divertido interpretar personagens assim.

Fonte | Tradução & Adaptação: Margot Robbie Brasil