Margot Robbie é capa da revista Stellar Magazine e falou sobre seu novo filme, Era Uma Vez em Hollywood, e sobre o foco de suas entrevistas geralmente serem sua aparência. Confira:

Então, não vamos fazer uma descrição do que ela está vestindo e nem falar as marcas. E também não haverá discussão de como seu cabelo está arrumado, nenhuma hipérbole sobre como o sol da Califórnia entrando pela janela está refletindo em seus olhos azuis. E é assim que Robbie prefere.

”Na verdade, eu realmente gosto de falar sobre aparência quando é relacionado aos personagens que interpreto,” ela conta. ”Cabelo, maquiagem e figurino são grandes aspectos, e cabeleireiros e maquiadores, assim como figurinistas, possuem um talento que é fascinante de assistir e apreciar. E eu não odeio de vez em quando aparecer em uma revista de beleza para falar sobre meus looks no tapete vermelho. Isso é interessante.”

“Eu só não gosto quando os looks são o foco quando há tantas outras coisas para discutir. Para mim, é uma oportunidade perdida. Algumas vezes eu sento, alguém faz uma pergunta – não necessariamente relacionada aos looks – e eu penso comigo mesma, ‘Eu trabalhei com tantas pessoas interessantes. Você não quer ouvir uma história sobre Martin Scorsese?’ Se eu estivesse no lugar deles, estaria perguntando algo diferente.”
Isso confirma o que muitos colegas e colaboradores de Robbie disseram sobre ela ao longo dos anos: ela é muito questionadora, ansiosa para se envolver e sempre curiosa sobre todos os aspectos do processo do cinema.

Era Uma Vez… Em Hollywood é o nono filme de Tarantino, e permanece um mistério – aqueles que viram na estreia em Cannes em maio foram pedidos para manter as revelações do enredo para si.

É também, provavelmente, a estreia mais aguardada de 2019, se vangloriando como o primeiro filme que junta Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, que interpretam uma estrela decadente de TV e seu dublê de longa data, respectivamente.

E como se passa em Los Angeles durante 1969, nos últimos dias da era de ouro de Hollywood, há uma grande especulação sobre como Tarantino captura o momento.

”Sinto que estou tão animada quanto todo mundo para a estreia,” diz Robbie, lembrando do dia que ela e seus colegas se reuniram para a primeira mesa de leitura. ”Eu não posso nem falar o quão surreal era olhar para o lado e ficar tipo, ‘Oh meu Deus… ali está o Leo. E o Brad. E a Dakota Fanning.’ Tantas pessoas que eu nunca sonhei que conseguiria trabalhar junto, quanto mais em um elenco. Há uma antecipação louca nisso.”

Robbie não lembra da primeira vez em que viu um filme do Tarantino.

”Eu acho que foi,” ela diz. ”Ou talvez não. Cães de Aluguel. Eu só lembro de pensar, ‘Eu sou jovem demais para estar assistindo isso,’ mas ao mesmo tempo estava amando. Eu não entendia o motivo naquela idade. Mas eu nunca parei de amar seus filmes, ele nunca desaponta.”

Isso continuou sendo verdade quando Robbie apareceu para o trabalho. No mês passado, o também australiano Damon Herriman, que aparece no filme como o líder do culto Charles Manson – contou para a Stellar que Tarantino conduzia um set sem ego.

”Não poderia concordar mais,” diz Robbie. ”Não existe hierarquia. Parecia como uma família ou amigos antigos. Não interessa se é um assistente ou supervisor de roteiro que ele trabalha desde o começo, Quentin ri e brinca e fica com todos da mesma forma. Você pode errar e tentar coisas diferentes, e você não vai entrar em problema, o que é muito divertido.”

Uma atmosfera leve foi sem dúvidas crucial dada a angustiante história real da personagem que Robbie interpreta no filme: a antiga atriz Sharon Tate, que estava grávida de oito meses e meio quando ela foi assassinada á facadas por quatro seguidores de Manson em um assassinato em massa em agosto de 1969. Tarantino observou a semelhança entre Tate e sua atriz principal, notando como ”ela transmite a pureza e inocência de Sharon.”

A visão de Robbie é que ”você não pode imitar uma pessoa esteticamente, e eu também não quero imitar uma personalidade. Eu meio que preciso da liberdade de desassociar a pessoa da vida real do personagem para conseguir atuar. Para mim, era mais sobre transmitir seu espírito de um jeito que parecesse real. E de um jeito que vá além da estética.”

Além disso, ela nota com uma risada auto depreciativa: ”Tentar e colocar esse tipo de pressão em si mesma ou no departamento de cabelo e maquiagem provavelmente não é tão útil.”

Robbie e Tarantino garantiram que tinham a aprovação final de Debra Tate, irmã mais nova de Sharon, antes das filmagens. ”Eu passei um tempinho com ela,” diz Robbie. ”Ela foi generosa o bastante de me dar esse tempo. E saber que Quentin teve sua benção fez toda a diferença.”

Se um dos legados de Tate é sua beleza física, outra é que ela permanece implacavelmente ligada à maneira brutal em que sua vida foi terminada. Robbie está interessada em mudar isso.

”Antes disso, toda vez que eu ouvia o nome Sharon Tate, eu imediatamente pensava sobre sua morte,” diz Robbie. ”Eu não pensava sobre sua vida. E então isso se tornou tudo o que eu pensava: como injetar o máximo de vida e pulsação nessa personagem. Eu queria trazer as melhores partes de mim para fora e transmitir todas as características que as pessoas mencionavam quando falavam sobre ela – angelical, generosa, gentil e maravilhosa. Parece tão banal associar uma pessoa que vivia com tanta vida com um final tão abominável e horrível.”

Robbie fez algo similar com a comédia satírica sobre a patinadora americana Tonya Harding em que ela produziu e também estrelou, onde o objetivo era reconsiderar a fama da patinadora na história.

”Exatamente,” ela se entusiasma. ”Sharon tinha muito pela frente. Eu me pergunto geralmente qual papel ela teria feito depois porque ela estava no topo, encontrando sua onda como atriz.”

O potencial não alcançado de Tate está em contraste gritante com tudo o que Robbie conquistou desde que chegou em Hollywood quase uma década atrás.

Na Austrália, ela foi indicada duas vezes ao Logie com 327 episódios de Neighbours em seus créditos, mas em salas de espera de audições cheias de tensão ou escritórios luxuosos de agentes por toda a cidade, ela era ninguém. Antes de sair da novela e do país, Robbie pediu para os produtores matarem Donna Freedman, a personagem que ela interpretava.

”Geralmente quando digo que vou fazer algo, mantenho a decisão e não volto atrás,” admite Robbie. ”Em parte, foi por isso que pedi para matarem a Donna em Neighbours. É difícil e assustador ir para um novo aspecto de sua carreira quando você não sabe o que vai acontecer. Você passa muito tempo pensando, ‘Oh meu Deus, será que eu cometi um erro terrível?’ Eu não queria ter a opção de ouvir minha dúvida e voltar atrás.”

Robbie diz que ela achou as primeiras chamadas de elenco em Los Angeles ”liberadoras… Eu lembro de entrar em salas de testes no começo com tanta coisa para provar e isso me motivava. Eu queria que as pessoas sentassem com postura ereta e parassem de olhar para seus papéis ou celulares e olhassem para mim. Era incrível. Me dava a motivação que eu precisava.”

Em 2011, não muito tempo depois de sair da Austrália, ela conseguiu um papel como uma aeromoça em Panam, sobre aviação nos anos 60 – um papel não muito diferente dos que Tate conseguia. Dois anos depois, ela conseguiu o papel em O Lobo de Wall Street. Era somente seu segundo papel em um filme, mas ela já estava jogando nos times grandes: DiCaprio era seu co-star e parceiro, Scorsese seu diretor.

Ironicamente, ela diz, ”Eu achei muito mais difícil depois que eu fiz Wolf porque todos esperavam um certo nível. Foi aí que eu comecei a me sentir muito nervosa antes das audições: ‘Oh, Deus… E se eu não conseguir ser o que eles querem que eu seja?’ Estranhamente, era mais fácil quando não esperavam nada.”

Após o #MeToo, Robbie diz que ela não tem histórias de terror sobre o teste do sofá para contar, mas que o movimento refletiu no que ela considerava assédio sexual.

”O problema não está resolvido,” ela começa. ”E não vai ser um conserto rápido. É contínuo, e temos um longo caminho pela frente – não só entre os sexos, mas entre raças, classes… tudo. Mas estamos em um lugar muito melhor agora do que 20 ou 50 anos atrás.”

“Você escuta histórias sobre atores trabalhando durante a era de ouro de Hollywood, histórias sobre Marilyn Monroe e você fica horrorizada e com o coração partido. E então você assiste seus filmes e elas estão sendo altamente sexualizadas ou humilhadas de um jeito disfarçado de comédia. Tenho certeza que todos pensaram que era adorável ou engraçado na época, mas algumas vezes eu assisto esses filmes e me sinto extremamente grata que posso ter meu tempo agora.”

Ansiosa para fazer mudanças no sistema, Robbie co-fundou a produtora LuckyChap Entertainment junto de dois amigos em 2014. Um deles, o diretor assistente britânico Tom Ackerley, se tornaria em breve seu parceiro romântico, também. Os dois casaram em Byron Bay no final de 2016.

Juntos, a dupla e seus amigos colocam a maquinaria da empresa para funcionar com o objetivo de contar histórias com personagens femininas fortes. E a extensa lista de produções está fervendo – tudo desde um live-action da Barbie até Aves de Rapina, um spin off de Esquadrão Suicida focado na personagem de Robbie, ou Shakespeare Now, uma série em 10 parte em desenvolvimento na ABC que será baseada em obras famosas do Bard atualizadas e contadas da perspectiva feminina – se encaixa na proposta. Dentro e fora das telas, Robbie quer falar sobre como as mulheres são comentadas, retratadas, tratadas e percebidas.

Além de fugir de discussões sobre sua aparência, Robbie também está tomando uma posição pelas mulheres que são esperadas que compartilhem quando e se elas planejam engravidar. ”Fico com muita raiva que existe esse contrato social,” ela disse para o Radio Times no começo do ano. ”Não presuma.”

Então, a Stellar se pergunta: essas perguntas finalmente pararam?

”Eu não pensei sobre isso,” ela responde. ”Mas acho que você está certa, não me perguntam regularmente.”

E ainda assim ela é a primeira a admitir que – como muitos de nós – é culpada de perguntar para recém casados sobre seus planos reprodutivos. ”Eu honestamente me sinto com uma grande hipócrita,” ela diz.

”Eu sei que eu já disse para amigos: ‘Oh, uau… quando vocês vão pensar sobre a coisa do bebê?’ E eu me pego pensando: Como isso saiu da minha boca? Por que essa é a minha primeira reação? Então, eu não estou apontando dedos. Mas é bom fazer uma auto avaliação.”

Por agora, Robbie preenche o quociente da família retornando para a Austrália sempre que pode. Em maio, ela deu de presente para a irmã mais velha, Anya, uma viagem no The Ghan e uma visita em Uluru, uma experiência que ela diz ser ”muito espetacular.”

Ela também quer filmar uma produção aqui ”assim que for humanamente possível.”

Até lá, como a Queenslander mais famosa na lista A de Hollywood, Robbie está feliz de levantar a bandeira por seu amado estado.. e carrega o peso de algumas piadas.

”Eu vou dizer que eu não sabia que faziam piadas com a gente até que me mudei para Victoria e comecei a ouvir essas piadas. Eu fiquei tipo, ‘O que? A Austrália estava rindo da gente e eu não percebi?’” Ela ri. ”Mas eu tenho muito orgulho de onde eu venho e falo sobre isso infinitamente com todos ao redor do mundo. Toda vez que eu volto, nada mudou. Me sinto a mesma pessoa que eu era quando vivia lá.”

Mesmo assim, o capítulo que começou quando ela se mudou para o exterior agora está chegando ao auge quando Robbie faz parte de um filme com dois dos maiores atores da era, um deles sendo seu primeiro colega no cinema. A natureza tortuosa de tudo isso não está perdida nela.

”Eu lembro de ver o Leo em um evento,” ela conta. ”’Me diz que você está fazendo esse filme e que vamos trabalhar juntos novamente.’ Obviamente tive mais cenas com ele em Wolf, uma grande oportunidade bem cedo de assistir alguém naquele nível e ver como eles fazem. Ajudou muito.”

“Então, eu sinto que completei um círculo completo ao trabalhar com Leo novamente. É um lembrete adorável da jornada que eu tive até agora em Hollywood. E não só ele – muitas pessoas nesse filme me inspiram. Eles são inacreditáveis, e é emocionante. Faz você querer continuar.”

Fonte | Tradução & Adaptação: Equipe Margot Robbie Brasil