Margot Robbie é capa da edição mais importante do ano da VOGUE Austrália e foi entrevistada pelo diretor de seu novo filme, Era Uma Vez em Hollywood, Quentin Tarantino, para o recheio da entrevista. Confira a tradução e as fotos:

Aos 29 anos, Margot Robbie construiu uma das carreiras mais impressionantes da ne tela, graças aos filmes como O Lobo de Wall Street, Esquadrão Suicida e, mais recentemente, Eu, Tonya, que ela também produziu. Mas seu novo papel como a atriz Sharon Tate, que foi morta nos assassinatos comandados por Charles Manson em 1969, irá colocá-la em lugares ainda mais altos. No nono e penúltimo filme de Quentin Tarantino, Era Uma Vez Em… Hollywood, Robbie está tão hipnotizante e enérgica oposta a seu vizinho que é estrela de cinema, Rick Dalton (interpretado por Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt), que estão se prendendo aos últimos dias da era de ouro do cinema.

Em uma recente sexta feira em Los Angeles, Tarantino, o diretor vencedor do Oscar, Globo de Ouro e BAFTA, sentou com Robbie para discutir seu próprio conto de fadas em Hollywood e como o destino interpretou seu papel trazendo o encontro dos dois.

Quentin Tarantino: Então, Margot, estou perguntando isso fora da minha edificação: Estou muito curioso. Como alguém que tem uma carreira estabilizada de atriz em outro país, na Austrália no seu caso, decide se mudar para a América e tentar possivelmente trabalhar em Hollywood? Porque isso é muito difícil. Você é cidadã americana?

Margot Robbie: Eu tenho um visto de trabalho e sou residente americana. Mas me deixa espantada. Não é algo que eu sempre sonhei em fazer, porque era muito irreal.

QT: Eu não sei para você, mas para mim, no minuto que eu consegui remotamente viver como roteirista em Hollywood, foi tipo: “Oh meu Deus, isso é um sonho virando realidade!” [Risos]

MR: Eu definitivamente tive esse momento. Eu entrei para Neighbours e pensei que isso era a maior coisa que ia acontecer comigo. Eu lembro de olhar pela sala verde com 30 membros do elenco e perguntar para todo mundo durante as primeiras semanas se eles tinham outros trabalhos, e eles ficavam: ”Esse é o único trabalho que eu tenho.” E eu fiquei tipo: ”Mas você tem filhos, né? Você pode colocá-los em uma escola e comprar uma casa só com a atuação?” Esse foi um momento crucial onde fiquei tipo: ”Ok, eu posso viver disso.” Então alguns meses depois de estar em Neighbours, eu vi alguns colegas de elenco da minha idade fazerem essa transição para Los Angeles antes de terminarem seus contratos. Eu lembro de pensar: ”Ok, agora que eu tenho conhecimento do território eu tenho três opções. Um, eu sou demitida porque não sou boa o bastante. Dois, eu sou boa o bastante e fico em Neighbours por 20 anos e que vida incrível essa seria. Ou três, eu arrisco e pulo para a América e tento minha sorte em Hollywood.” Então seis meses depois eu tomei a decisão e comecei a guardar dinheiro e a aprender o dialeto americano. Você me conheceu com meu sotaque australiano agora, mas o meu sotaque era muito, muito australiano.

QT: Um sotaque australiano quádruplo! [Risos]

MR: Eu sou de Queensland, e meu sotaque era tão australiano que o pessoal em Neighbours contratou um professor de dialeto para me fazer soar menos australiana. Então isso fez parte do processo de me mudar para a América. Antes da ideia de estar em Hollywood, eu pensava que você tinha que nascer aqui ou tinha que conhecer alguém na indústria.

QT: A série Pan Am foi o primeiro: ”Oh, uau, acho que consegui alguma coisa?”

MR: Sim. Durante meus três anos em Neighbours, eu consegui um agente adequado, Aran Michael, e ele começou a me ajudar quando eu disse que queria me mudar. Todo ano eu dizia: ”Aran, eu preciso ir para a América, estou ficando muito velha. Vou perder minha chance.” Eu tinha 18 anos. Por alguma razão, Dakota Fanning era o padrão na minha cabeça. Eu dizia: ”Você sabe quantos filmes a Dakota Fanning já fez até agora? E ela é mais nova do que eu!” E ele ficava: ”Não, nós temos que cronometrar isso para você chegar lá antes da temporada de pilotos, conhecer agentes americanos, e então voltar em janeiro para começar.” Você só recebe a chance de ser uma pessoa nova uma vez, então cinco dias depois de 22 de outubro, que foi quando meu contrato em Neighbours terminou, eu vim para cá.

QT: Então você conseguiu um piloto de primeira?

MR: Bom, enquanto eu estava conhecendo agentes, me pediam para fazer um teste rápido, porque alguém estava refazendo As Panteras para a TV. Eu não estava pronta para fazer testes até janeiro, então fiquei um pouco abalada, mas eu fiz e então voltei para a Austrália. Eles me pediram para fazer outro teste em janeiro e eu não consegui o papel, mas eles disseram que tinham outra série chamada Pan Am que eles pensaram que seria melhor para mim.

QT: Então literalmente nessa primeira chance, antes mesmo do primeiro piloto – desde aquele pequeno teste você conseguiu sua primeira série?

MR: Sim. Então de repente eu estava filmando um piloto em Nova York. Você tem que se lembrar que eu estava vivendo em Gold Coast, então eu pensei que eu estava vivendo em uma cidade. Quando eu via minha família que mora em Dalby [interior de Queensland] eles me chamavam de garota da cidade. Quando eu me mudei para Melbourne para fazer Neighbours, eu fiquei tipo: ”Whoa, isso é uma cidade.” Então quando eu cheguei em Nova York, fiquei: ”Eu estava totalmente errada, isso é como é uma cidade.”

QT: Você era uma pequena Crocodilo Dundee andando por Nova York.

MR: Sim… ”Isso não é uma faca.” Tudo era tão louco. Antes que eu percebesse tínhamos filmado o piloto de Pan Am e havia um pôster na Times Square. E eu mal tinha completado seis meses lá.

QT: Mas essa cidade é assim. Com algumas pessoas levam 12 anos para ter algum tipo de movimento; outras levam apenas seis meses. Ou algumas vezes as pessoas conseguem em seis meses e então demora 12 anos para chegarem no próximo passo.

MR: Não existe uma linha do tempo específica, eu acho, e você está certo, essa é a mágica de Hollywood. Tudo pode mudar tão rapidamente. As pessoas sempre me perguntam qual é a melhor parte. Eu não consigo dizer que O Lobo de Wall Street foi melhor do que minha época em Neighbours, e eu não consigo dizer que Os Últimos na Terra não é tão importante para mim quanto Tarzan. Tudo é muito emocionante.

QT: Eu tenho que encontrar um jeito certo de perguntar isso para não soar como se estivesse procurando por um elogio, mas aqui está a situação – Eu estive escrevendo o roteiro de Era Uma Vez Em… Hollywood por muito tempo. Eu estava terminando e especulando como louco quem seria Cliff e quem seria Rick [papéis que foram para Pitt e DiCaprio] mas não estou pensando nem um pouco em quem seria a Sharon, porque para mim não havia segunda opção – era você. Você a sugeriu de tantas maneiras diferentes e você consegue mais do que segurar seu próprio peso nesse triângulo gigante que eu estou tentando carregar com três personagens principais para contar a história. Mas esse foi o ano que você explodiu e era a atriz mais popular na cidade. Foi algo tipo duas semanas do término do roteiro, digitei tudo, e então do nada eu recebo uma carta na minha casa e vinha de você. Fiquei tipo: ”O que?! Em um minuto estou pensando sobre você e então eu recebo essa carta. Nela você expressava que era fã do meu trabalho por um longo tempo – você e toda sua família – e você diz: ”Eu só quero que você saiba que se precisar de mim para alguma coisa, pode me falar.” A carta foi escrita de um jeito quase romântico porque era ótima. É exatamente o que eu queria ouvir. Eu não conseguia acreditar na casualidade de tudo isso. Em menos de uma semana nós nos encontramos e começamos a conversar. Então, o que te motivou a escrever essa carta?

MR: Eu queria escrever essa carta por anos e anos e anos. Porque eu ouvi falar que você só iria fazer 10 filmes e eu não conseguia suportar o pensamento de que eu perderia o barco e nunca veria como era um de seus sets de filmagem. Eu precisava achar um jeito de ir no set. Talvez eu pudesse segurar a porta no fundo de uma cena. [Risos.] Mas ao mesmo tempo, eu não estava na posição de chegar para Quentin Tarantino e dizer: ”Oi, meu nome é Margot e eu poderia visitar um de seus sets?”

QT: [Risos]

MR: Então eu sabia que ainda não estava nessa posição e cada vez que alguma coisa emocionante na minha carreira acontecia e me colocava no mapa um pouquinho mais, eu pensava: ”Ok, eu sinto que estou me estabilizando mais e talvez agora seja a hora.” Não foi até fazer Eu, Tonya que eu pensei: ”Agora estou feliz com a minha atuação. Eu sinto que eu cheguei em um nível onde o meu trabalho vai mostrar para as pessoas o que posso fazer como atriz. Agora estou pronta para conversar com Quentin Tarantino e escrever aquela carta.” Eu lembro de ficar agonizando sobre tudo – o papel, a caneta, como eu ia escrever – letra grande, pequena, com espaços. Então, é claro, eu pensei que você talvez nem recebesse a carta, então eu deveria parar de surtar tanto, e então eu só escrevi logo e rezei para que chegasse até você, e chegou. Algumas semanas depois eu lembro de receber a ligação dizendo: ”Quentin recebeu sua carta e ele gostaria de encontrar você.” Eu não queria me adiantar, mas quando nós sentamos – eu lembro que você pediu um chá gelado com adoçante – eu senti que era a reunião mais emocionante da minha vida. Eu lembro que você disse: ”Você sabe quem é Sharon Tate?” E eu disse: ”Sim, eu sei,” porque, por mais engraçado que seja, depois que eu me mudei para Los Angeles, outro ator australiano (Rhys Wakefield) e eu costumávamos dirigir até Cielo Drive [onde aconteceram os assassinatos] e líamos Helter Skelter [um livro escrito sobre os assassinatos] em voz alta.

QT: Está brincando. Sério?

MR: Sim, sério, era nossa coisa. Nós íamos no meio da noite e líamos Helter Skelter em voz alta para nos assustar.

QT: Você nunca me contou isso.

MR: Eu sei. Existem tantas histórias de Hollywood e tantas histórias na história de Hollywood e essa é uma das que se destacam. Então, se eu conhecia Sharon Tate? Bom, eu sabia tudo sobre sua morte. Mas eu nunca olhei nada de sua vida e não foi até ler o roteiro que de repente eu fiquei: ”Oh meu Deus, eu só sei sobre a morte dessa mulher.” Eu nunca tirei um segundo para apreciar sua vida, e isso que foi tão incrível e tocante sobre seu roteiro. Ela se tornou tão viva nas páginas e na minha imaginação. Eu posso vê-la fazendo todas as coisas que você escreveu, andando pela cidade ou dançando no quarto, o que for. E então fiz toda a pesquisa e assisti seus filmes e entrevistas – foi realmente um presente lindo focar em sua vida.

QT: Havia uma coisa muito encantadora sobre fazer esse filme com você. Brad e Leo estão trabalhando por quase tanto tempo quanto eu – estou quase em 30 anos. Eu ainda estou muito animado de estar fazendo esse filme mas estou chegando em uma idade onde é o que é, e foi tão encantador trabalhar com você: alguém que não estava indiferente sobre tudo. Você é o oposto de saciada. Você era a tomada que de tempo em tempo eu ia me ligar. Eu ficava tipo: ”Eu estou gostando disso, mas não estou gostando tanto quanto a Margot, e eu preciso.”

MR: Você é o diretor mais feliz que eu já vi em um set, você fica tão animado, e era assim que eu me sentia.

QT: Bom, eu sou assim. Mas de qualquer jeito você era meu pacote de energia e entusiasmo.

MR: Mas não importa em quantos sets eu já estive, não é o mesmo que nesse. Pouca imaginação foi utilizada, porque estava tudo lá [como se fosse em 1969], até a música tocando – os carros, a mobília, tudo estava lá na nossa frente e era palpável e real. Ficar sem celular significava que eu nunca seria lembrada durante o dia que estávamos em 2019 – podíamos existir nessa outra era. Eu não consigo lembrar de algum set onde eu não tive que usar minha imaginação para me transportar. É como se você tivesse tirado esse trabalho de nossas mãos completamente. Tudo veio de um lugar tão pessoal e foi como entrar em suas próprias memórias. Foi diferente de todos os outros sets que eu já estive antes e a experiência inteira foi incrível.

Fonte | Tradução & Adaptação: Equipe Margot Robbie Brasil