Além da entrevista em grupo para a Glamour UK, o elenco de Aves de Rapina também participou de entrevistas individuais para o site da revista. Confira a da Margot abaixo:

A palavra irmandade é muito usada em Hollywood. Mas estando em um vasto estúdio no centro de Los Angeles, assistindo as estrelas do mais recente filme da DC, Aves de Rapina (Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa), Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell e Rosie Perez interagirem durante a sessão de fotos para a capa da Glamour, é evidente que isso é real até fora das telas.

Enquanto múltiplas equipes de beleza e assessores as cercam, elas estão apenas interessadas umas nas outras enquanto fazem piadas internas, arrumam o visual da outra e gritam palavras de encorajamento entre as fotos. É como suas personagens na tela, Canário Negro (Jurnee), Caçadora (Mary) e Renee Montoya (Rosie) se juntam após Harley Quinn (Margot) termina com o Coringa e elas tentam derrubar o novo vilão de Gotham, Roman Sionis (Ewan McGregor), uma luta de chutes por vez.

Falando mais tarde sobre o impacto que essa irmandade teve nela, Rosie Perez – que agora possui 30 anos de experiência na indústria desde sua estreia em Faça a Coisa Certa de Spike Lee – me dá uma resposta sem bobagem: ”O set de Aves de Rapina era tão apoiador. Poder pegar o telefone e ligar para a Jurnee ou para a Margot ou ir até a casa da Mary realmente não acontece em Hollywood. As pessoas dizem que acontece e elas vão dizer isso para a imprensa e você fica tipo, ‘Isso é mentira – eles saíram uma vez,’” Rosie diz, com naturalidade.

Mais tarde, enquanto elas individualmente entram na minha sala de entrevista do lado da sessão de fotos, elas revelam que com a ajuda desse grupo sólido – e longe dele – elas tiveram suas próprias jornadas de emancipação. Com honestidade, as estrelas do filme estão prontas para contar suas histórias.

Eu conheci Margot Robbie inesperadamente no verão passado quando cantamos os maiores hits de Celine Dion durante o show da cantora no Hyde Park – e parece que nada anima mais a Margot do que a Celine. ”Eu adoro ela, nada me deixa mais feliz,” exclama a atriz de 29 anos, enquanto ela me cumprimenta em um raro dia nublado em Los Angeles.

Enquanto essa pode ter sido uma performance estranhamente ‘arriscada’, desde que Margot chegou em Hollywood como a sedutora esposa de Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street, sua atuação raramente tem sido fora de tom – mas, ela diz, se não fosse pelo fato de ter dado um tapa no rosto de Leonardo DiCaprio no teste, faltando 30 segundos para terminar, ela talvez não estaria sentada comigo hoje.

Mas a Margot raramente senta quieta. Depois de O Lobo de Wall Street, ela interpretou a Rainha Elizabeth I ao lado de Saoirse Ronan em Duas Rainhas, ganhou uma indicação ao Oscar por interpretar a patinadora complexa Tonya Harding em Eu, Tonya, e mais recentemente interpretou Sharon Tate em Era Uma Vez em Hollywood e roubou muitas cenas como a aspirante a âncora da Fox News em uma performance indicada ao Golden Globe em O Escândalo. Durante o processo, Margot mostrou muita determinação e pouca consideração por estereótipos redutores, e isso é mostrado quando ela conseguiu duas indicações na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante no BAFTA desse ano por seus papeis mais recentes.

”Eu nunca quero interpretar a mesma personagem mais de uma vez,” Margot me diz. ”Eu sempre soube que queria sair da minha zona de conforto. Sempre tive consciência disso. Com O Lobo de Wall Street, eu adorei interpretar a esposa troféu e interesseira – eu tive a melhor época da minha vida naquele filme – mas a menos que venha de um espaço diferente consciente, eu não quero interpretar a mesma pessoa.”

Cada papel pode apresentar um novo capítulo para a Margot, mas o grande começo para ela veio a 11,932 quilômetros de Los Angeles, em Melbourne, Austrália, para onde ela se mudou aos 17 anos para interpretar Donna Freedman em Neighbours. Foi uma mudança de sua cidade natal em Dalby, norte de Brisbane, onde ela cresceu com sua mãe fisioterapeuta e seu pai que trabalhava com fazendas, e seus três irmãos.

Foi um novo começo meio Harley Quinn que proporcionou uma virada pessoal para Margot. ”Eu não conhecia ninguém em Melbourne e isso foi assustador. Eu definitivamente tive aqueles momentos de, ‘Eu posso fazer isso, sou uma mulher independente’ e então ‘Puta merda, isso é muito difícil e assustador, talvez eu não possa.’ Eu tive muitos desses momentos quando comecei a trabalhar em Neighbours e estava tentando entender a vida,” ela diz.

Foi durante seus dois anos e meio na Ramsey Street que Margot teve um exemplo do poder da camaradagem – o que se tornou central em sua vida. ”Eu acho que a coisa engraçada é que você percebe que todas as respostas estão nas pessoas que você está trabalhando ou se relacionando. Eu tenho sido constantemente surpreendida na minha vida com o quanto as pessoas te ajudam se você pedir. Eu vi, especialmente nos primeiros dias, as pessoas fazerem coisas incríveis, seja me deixar dormir no sofá por meses, me emprestar o carro, me mostrar como pagar meus impostos, ou me ensinar a cozinhar frango porque eu não tinha comido nada além de cereal por três meses,” Margot continua.

”As pessoas constantemente se aproximavam e falavam, ‘Deixe-me ajudá-la.’ Eu apreciei muito isso e nunca vou esquecer. Então, o próximo grande começo foi três anos depois quando me mudei para os Estados Unidos e isso pareceu totalmente uma coisa nova e limpa porque ninguém aqui sabia quem eu era. Algumas pessoas ouviram falar de Neighbours, mas nunca assistiram, então eu tive minha anonimidade de volta por um tempo, o que foi um sentimento libertador que definitivamente fez com que parecesse um novo começo. Eu pude reconstruir quem eu queria ser e como queria que minha carreira fosse.”

Em todas as vezes que Margot apertou o botão de recomeçar – incluindo uma fase pré-Hollywood em Londres, vivendo em uma casa alugada em Clapham com seis amigos e passando suas noites de sábado na famosa boate Infernos – Margot só agora sente que está se tornando adulta.

”Eu não me sentia adulta aos 17 anos porque eu me mudei e estava vivendo sozinha,” ela compartilha. ”Isso não me fez sentir como adulta, isso me fez sentir como uma criança que estava tentando fazer coisas de adulto. Eu estou começando a me sentir adulta realmente só agora que estou aprendendo a dizer ‘não’ para as coisas. Essa foi a maior parte do crescimento para mim; dizer ‘não’ e tendo coragem de dizer ‘não’. Eu sempre fui uma pessoa de dizer sim, então eu me sinto muito mais adulta e em controle da minha vida quando eu posso dizer, ‘não, eu sei o que eu quero e eu sei que não é isso e eu não vou fazer isso!’”

À luz de todos esses capítulos variados em sua vida, me pergunto o que ela diria para a Margot de 17 anos sobrevivendo em uma dieta de cereal agora? ”Deus,” Margot diz. Depois de uma longa pausa: ”Eu diria para ela, ‘você é boa o bastante.’ A maior coisa para mim é que eu tinha essa síndrome de impostora. Eu ainda tenho algumas vezes e acho que todo mundo vai perceber e perguntar ‘Como você chegou aqui? Você não é boa o bastante para isso. Quem deixou você entrar?’ Eu sentaria com ela e diria ‘Você é boa o bastante. Você vai ter que continuar trabalhando muito, mas você consegue fazer isso.’”

Margot continua sendo sua pior crítica, no entanto. ”Eu sou muito, muito autocrítica e eu critico muito meu trabalho. Eu estabeleci um padrão muito alto para mim. Eu sempre quero fazer melhor e sempre penso que posso fazer melhor. Não acho que tenha um momento onde eu pensei, ‘Você arrasou.’ Sempre penso, ‘Você fez o que você se programou para fazer, mas perdeu a mão aqui e na próxima vez você vai fazer diferente.’ Eu tenho essa voz interna que está constantemente buscando por algo melhor.”

Como ela tenta silenciar essa crítica que ela constantemente tem ao seu lado? ”Eu acho que é uma boa coisa,” Margot responde. ”Eu não quero ser autocrítica demais. Eu acho que é importante levar as coisas com cautela. As pessoas geralmente possuem essa ideia errada que os atores são feitos de vidro, eles são muitos frágeis e se vocês disser uma coisa para eles, eles vão cair em pedaços. As coisas mais horríveis são ditas para nós o tempo todo, então você ganha um escudo depois de estar na indústria por um tempo. Então sinto que sei como reconhecer algo e não deixar isso tomar conta de mim. Eu penso, ‘Ok, anotei, mas agora preciso deixar ir,’ ou então vou ficar maluca.”

Margot também aprendeu a silenciar suas opiniões negativas sobre seu próprio corpo, e interpretar pessoas diferentes reformulou sua apreciação por isso. ”Não quero que meus pensamentos autocríticos tomem conta do momento em que estou – só tento permanecer verdadeira com a cena e com o momento para o personagem. Eu preciso me diferenciar do personagem e dos meus pensamentos pessoais – a Harley não liga para nada disso.”

A atuação é terapêutica para sua inseguranças com sua imagem? ”Sim,” Margot responde, antes de fazer referência para sem papel em O Escândalo. ”Com a Kayla, todas as mulheres na Fox tinham que usar vestidos apertados e eu queria me sentir desconfortável. Adicionou muito para o personagem. Eu não queria estar na minha melhor forma física porque queria ficar desconfortável nesses vestidos muito apertados, que era o uniforme na Fox.”

Margot está evidentemente mais no controle de sua própria narrativa do que nunca, e como ela me conta, deve-se à criação de sua própria produtora, LuckyChap Entertainment em 2014 ao lado de seu marido, Tom Ackerley – com quem ela casou em 2016 – e dois amigos de sua casa em Clapham, Josey McNamara e Sophia Kerr. LuckyChap tenta advogar projetos com foco em mulheres, mas até sua reviravolta que a indicou para o Oscar como patinadora em Eu, Tonya na lista de uma forma típica “Margot”, ela não fez uma música e dançou sobre isso.

”Nós estávamos fora de radar e quando nós fundamos a empresa, nós não fizemos um anúncio, ‘Estamos aqui, somos a LuckyChap Entertainment e somos uma produtora que vai fazer conteúdo liderado por mulheres,’” ela diz, fazendo um movimento circular com os dedos. ”Não foi até a estreia de Eu, Tonya que as pessoas disseram, ‘Esperem, o que vocês estão fazendo? Vocês possuem outros 50 projetos?’ Até aquele ponto, nós passamos muito tempo tentando entender o que queríamos fazer, encontrando nosso campo e sem muitos olhos em nós.”

Sem estar pronta para deixar a Harley Quinn ir após interpretá-la em Esquadrão Suicida, Margot mirou na maior produção da produtora até agora, Aves de Rapina, e entrou na sede da Warner Bros. para apresentar a ideia.

”Foi uma batalha difícil. Eu apresentei a ideia quatro anos atrás,” ela me conta, com uma leve expiração de ar, indicando o quão difícil foi levar o filme para as telas. Ela apresentou a ideia com uma apresentação no PowerPoint cantando e dançando animada e com fogos de artifício inspirados na Harley?

”Eu apresentei com uns slides que eu fiz,” ela ri. ”Foi bem grosseiro. Tinha partes de outros filmes com mulheres no elenco que foram bem de bilheteria e outros que não foram e minhas teorias sobre os motivos e o que poderíamos fazer. Mas realmente, eu estava apenas dizendo que precisávamos fazer um filme de ação com mulheres no elenco. Eu queria que tivesse classificação para maiores para não nos sentirmos restritos na linguagem ou na violência, porque se tivesse classificação, os caras iam pensar que era um ‘filme de mulherzinha.’”

Aves de Rapina certamente não tem nenhum componente do gênero “filme de mulherzinha”. Harley é vista inalando cocaína, participando de violência extrema e enquanto há alívio cômico em sua narração única da história, Aves de Rapina é um chute em qualquer pré-concepção sexista sobre super-heroínas ou vilãs. Pense no filme como girl power realmente sob o efeito de ácido.

Com o tópico do sexismo em mente, eu me pergunto se ela encontrou dificuldades em ser levada a sério em seu novo papel como produtora. Margot revela que foi outra batalha, desta vez com o sexismo cotidiano. ”Está naturalmente impregnado nas pessoas. Mesmo se você é a pessoa que toma as decisões, eles se viram para o homem mais velho da sala e fazem as perguntas para eles. É uma coisa natural que todo mundo tem em seu DNA,” ela diz, parecendo um tanto exasperada.

Enquanto ela diz que é raro ver declarações sexistas direcionadas a ela, Margot vê isso no tom subconsciente de certas interações. ”Quando as pessoas estão fazendo uma pergunta e eu tenho a resposta, eles prontamente viram para meus parceiros que são homens e perguntam a eles. É uma coisa financeira, então vou perguntar para o homem. E eles ficam, ‘Na verdade, ela é quem tem a resposta, então pergunte para ela!’ É a construção social que crescemos conhecendo. Acho que o interessante agora é que todos estão conscientes disso e geralmente se corrigem. Eu acho que as pessoas querem abraçar a ideia de igualdade. Acho que eles estão um pouco chocados que não abraçaram antes, e não tinham essa mentalidade e não eram conscientes disso.”

Preconceito etário reverso também foi um obstáculo para Margot ter sua voz respeitada. ”A idade entra muito no jogo. Quando você é mais nova e está tentando se defender e dizer, ‘Isso é o que eu penso e acho que deveríamos fazer desse jeito,’ as pessoas dizem, ‘Nós fazemos isso por muito tempo então baixa a bola.’ Mas eu sinto que os Estados Unidos em geral é mais receptivo com a juventude e ideias novas, o que acho que é uma coisa muito legal.”

Margot agora está flexionando os músculos de sua voz interior mais do que nunca nas áreas profissionais, mas quando se trata de sua vida social, ser mais vocal está se tornando um problema para ela. ”Eu não tenho esse impedimento quando se trata do trabalho,” Margot diz. ”Meus parceiros de produtora e melhores amigos sempre acham tão engraçado porque eles dizem, ‘No trabalho você não tem escrúpulos ao pegar o telefone e ligar para o chefe de qualquer coisa, ou uma pessoa assustadora da indústria e dizer, ‘Isto é o que eu penso, isto está certo e isto errado e eu quero fazer isto.’ Mas na sua vida pessoal você tem tanto medo de se defender ou dizer para as pessoas o que deveria ser o que.’ Eu não sei por que sou assim.”

Com isso em mente, qual seu momento mais orgulhoso em que ela se defendeu? ”Eu só tive poucos porque sou tão contra o confronto. Mas em algumas ocasiões eu já disse para alguém, ‘Não fale assim comigo,’ seja alguém com quem estava trabalhando ou na vida em geral. É esse momento de dizer, ‘Eu não estou bem com isso e você não vai falar comigo desse jeito.’ Essa foi a coisa mais assustadora para mim, colocar um limite assim. É petrificante.”

Por passar esse tempo com a Margot e assisti-la interagir com suas colegas de elenco no set, é claro que ela é tão gentil quanto humilde, tão divertida quanto inteligente, ouve tanto quanto fala e é o tipo de amiga que todo mundo precisa. Por exemplo, quando eu falo com Rosie Perez mais tarde, ela revela que confidenciou seu TEPT severo em Margot e o quanto sua colega de elenco e elenco a apoiou.

Afinal, irmandade é algo natural para a Margot. ”É algo que estive ciente durante minha vida inteira. Desde que consigo me lembrar tenho um grupo especial de garotas. Minhas amiga da Austrália e eu estamos juntos desde que tínhamos quatro ou cinco anos de idade e isso é muito especial – é honestamente a coisa que sou mais grata na minha vida. Em cada estágio da minha vida, quando me mudei para Nova York ou Londres, sempre há um grupo de garota que formamos. Eu sempre soube o quanto tenho sorte de ter isso e o quanto me empodera, e minha vida é completamente diferente por causa das minhas amigas,” Margot diz.

Quando nossa entrevista está terminando, eu a parabenizo por sua indicação ao Golden Globe por Melhor Atriz Coadjuvante em O Escândalo – sua segunda indicação – depois que foi revelado naquela manhã. Traga para casa aquele globo, eu digo para ela. ”Espero que sim,” ela responde, com hesitação. ”Eu amei aquela personagem.”

Ocorre-me que, apesar de tudo, apesar de ter feito seu próprio caminho desde Ramsey Street até sua casa agora em Hollywood, Margot ainda duvida de si mesma. Mas como Celine Dion diz, ’That’s The Way It Is’ e não há nada que cantar grandes hits e dançar com as mãos pro ar não resolva – pelo menos temporariamente.

Fonte | Tradução & Adaptação: Equipe Margot Robbie Brasil