Margot Robbie e Greta Gerwig participaram de uma entrevista para o Los Angeles Times e falaram sobre os bastidores de Barbie e sobre as indicações do filme ao Oscar. Confira:

Como você faz uma história sobre uma boneca de plástico onipresente valer a pena ser contada? E se ela passasse por uma crise existencial? Como você aumenta as apostas para a produção do filme? E se a produtora e estrela dele passasse por uma crise também?

“Tenho uma lembrança clara da Margot indo até a minha casa antes de começarmos a filmar com uma crise de atriz: ‘Como vou fazer isso?’ É o equivalente a um ator encarando uma página em branco”, disse a diretora e co-roteirista de Barbie, Greta Gerwig, sobre um momento do desdobramento do projeto com Margot Robbie.

Gerwig entendeu o problema. Era difícil fazer a junção, tentar incorporar um personagem que começa em um estado de perfeição. Quando a história começa, a Barbie vive uma vida completamente sem atritos na perfeição rosa da Barbielândia.

“Isso vai parecer loucura, mas todos os dias eu pensava em… Ai, Deus, isso vai soar como algo muito irritante agora, mas vamos lá: Paraíso Perdido de Milton… acompanhe meu pensamento,” Gerwig insiste, “é sobre o Éden. A primeira parte do poema fala sobre Éden antes da Queda, e não é algo irrelevante para o mundo que estávamos criando em Barbielândia. Não há vergonha, não há envelhecimento, não há morte, não há dor. E então se torna algo que tem essas coisas. Mas naquele Éden, há uma separação entre o ser e o ambiente.

Então, não há poesia, porque não há metáfora. Qual seria o papel da metáfora se tudo é literalmente o que é? Depois da Queda, mesmo que seja horrível, de algumas formas, você tem a poesia, porque é o que acontece quando há uma distância entre o ser e o ambiente, e há uma vida interior e uma alma.”

Sim, ainda estamos falando de Barbie.

“O que observei Margot fazer com essa performance foi encontrar essa inocência que não tinha poesia, e depois permitir uma alma necessária aparecer”, continua Gerwig. “E isso acontecia todos os dias. Acho que foi um arco tão humano, porque, minha nossa, todos nós conhecemos o desespero de tentar juntar as peças que estão se quebrando diante de nós, todos passamos por isso na vida o tempo todo.”

Robbie faz uma pausa do seu lado da chamada de vídeo, sorri, e diz: “Esse é o tipo de direção que eu recebia todos os dias.”

E aconteceu como a diretora descreveu, diz Robbie, que também produziu o filme: “Fui até a casa da Greta e passei por essa crise. Eu havia passado anos tentando fazer esse filme, e de repente íamos filmar, e eu estava: ‘Minha nossa, não sei como vou fazer isso.’ Acontece antes de todos os filmes que já fiz. Algumas semanas antes dou um chilique em que penso: ‘O que estou fazendo? Não sei atuar. Todo mundo vai perceber que não sei fazer nada disso, e vai ser terrível.’ Então é só puro pânico. Sim, fui até a casa da Greta. O pânico era nítido e debilitante. ‘Não sei como aplicar nada da pesquisa que fiz, e eu pesquisei tudo, mas ainda não sei quem ela é.’

Foi tão difícil porque eu estava tentando segurar uma coisa que não era nada. Era como se restasse apenas uma uva na tigela e você não conseguisse dar uma garfada, tipo, eu não conseguia pegar. Não havia nada para me basear porque ela não tinha traumas de infância e nem todas as outras coisas que normalmente me baseio para construir um personagem. A Barbie não tinha nada disso e eu não conseguia entendê-la. Então Greta me ajudou nesse percurso e me apontou as direções certas, e conversamos sobre isso.”

Robbie tinha outra vantagem, talvez um parceiro silencioso a ajudando no caminho: a sequência inicial sem falas.
“A primeira semana foi quase como um filme mudo, porque estávamos filmando a sequência da Barbie acordando e seguindo com seu dia”, diz Gerwig. “Era como uma linda dança sem palavras. Não sei outra forma de descrever. Ela estava lá. A Barbie estava lá.”

“O que a Margot faz em sua atuação é tão incrível porque parece tão natural”, continua Gerwig. “Mas a verdade é que a Barbie é um ser que não tem vida interior, nenhuma dúvida, nenhuma questão. E esse ser não é insípido, só é literal. Então, esse ser começa a desmoronar diante de nós e ela tenta desesperadamente juntar os pedaços. E quanto mais ela junta, mais vemos o fantasma na máquina. É como um show de mágica.”

Robbie agradece Gerwig por enviar um episódio de This American Life para ela, “sobre uma mulher que não é introspectiva, ajudou muito. Já comecei filmes em grandes cenas de luta ou em um acidente de carro, mas mergulhar em uma perfeição vazia foi tão difícil e estranho.”

A carreira de Robbie é extraordinária não só por alguns de seus filmes mais conhecidos (O Lobo de Wall Street, Era Uma Vez em… Hollywood, O Esquadrão Suicida entre eles), mas porque assim que ela teve uma quantidade de poder na indústria, ela tomou as rédeas. Ela e seus parceiros formaram a LuckyChap Entertainment, uma produtora focada em produzir filmes feitos por mulheres como parte de uma missão declarada, sejam eles estrelados por Robbie (como o ganhador de um Oscar ‘Eu, Tonya’) ou não (o ganhador de um Oscar ‘Bela Vingança’ e o muito comentado ‘Saltburn’). Então, o que tornou um brinquedo de plástico o próximo produto lógico de sua produtora?

“Essa boneca tem sido um recipiente para tantas coisas ao longo dos anos. E eu acho que além da oportunidade óbvia de alcançar muitas pessoas por conta do reconhecimento global da Barbie, saber o quanto ela tem sido controversa ao longo das décadas é muito interessante. Ela foi controversa quando a sociedade esteve em temperaturas totalmente diferentes”, diz Robbie. “Algo que percebi quando fizemos ‘Eu, Tonya’ é que todo mundo já decidiu como se sente em relação a nossa protagonista antes de se sentarem para assistir ao filme, na maioria das vezes. Foi muito interessante começar a jornada a partir desse ponto e ter a protagonista tão familiar com o público, além de ser alguém que talvez faz com que as pessoas tenham sentimentos conflitantes.

“‘Ah, eu me sentia dessa forma em relação a ela quando ela mais nova, e me sinto assim agora que estou mais velha.’ Ou ‘Li alguns artigos enquanto fui ficando mais velha…’ Há tantos sentimentos e pontos de vista amarrados na Barbie, mas estão todos conectados a você e ao estágio da sua vida, e isso só adiciona uma camada extra de investimento emocional do público, eu acho. Então isso pareceu emocionante e muito assustador. Parecia muito evidente que havia muitos jeitos de fazer esse filme da forma errada.”

E o público investiu bastante em Barbie. Arrecadando uma bilheteria mundial de 1,4 bilhões de dólares que quebrou recordes, o filme também causou um impacto na academia de cinema. Entre as oito indicações ao Oscar no mês passado estava uma em Melhor Filme e uma para Gerwig e Noah Baumbach pelo roteiro. Ainda assim, indicações nas categorias de atuação e direção para Robbie e Gerwig não estavam entre as anunciadas.

Muito foi escrito sobre se essas omissões foram esnobações que simplesmente provaram o ponto feminista colorido do filme de que as mulheres ainda não são tão poderosas quanto os homens ou se a categoria de direção tem um limite implícito de indicações para mulheres (Justine Triet, diretora de ‘Anatomia de uma Queda’, recebeu indicação). Mas muitos questionaram como um filme que ganhou a bilheteria mundial, ajudou a reviver o movimento no cinema e recebeu aclamação crítica, assim como ‘Oppenheimer’, a outra parte da equação Barbenheimer que foi indicado nas categorias, não recebeu votos o suficiente para sua diretora?

Em outra conversa, Robbie respondeu à pergunta.

“Nos propomos a fazer um filme que iria além das normais culturais, uniria as pessoas, entreteria e envolveria o público em um nível muito emocional. Poder fazer isso nessa escala e magnitude, e ver o filme ressoando do jeito que aconteceu é realmente além do que esperávamos e nosso maior prêmio.

“Como produtora e atriz dela, adoraria ter visto a Greta indicada em direção? É claro. Mas ela se tornou a primeira diretora a ter os três primeiros filmes indicados em Melhor Filme, o que é histórico pra caramba. Greta descobriu o segredo nesse filme, de uma forma que só ela poderia. É uma visão tão única, e a Greta trouxe tanta humanidade, criatividade, inspiração, mágica e alegria para ‘Barbie’. É por conta dela que todos recebemos tanta aclamação.”

E talvez, Robbie imagina, o nível de dificuldade envolvido na produção não foi aparente.

“Parece que todo mundo pensa que era uma certeza desde o começo, que tudo o que eu tive que fazer foi lidar com uma papelada, começar a filmar e, bum, tinha um sucesso em mãos. Não foi o caso. Foi um milagre e tanto produzir esse filme e fazê-lo da maneira que queríamos. Ainda não acredito que ele foi feito com a versão do roteiro da Greta e do Noah”, diz Robbie.

“Havia milhões de [possíveis] filmes terríveis da Barbie e talvez um que era perfeito, e era um alvo tão pequeno que foi estimulante mirar nele e esperar que conseguiríamos atingi-lo. E parecia que, se pudéssemos, seria muito impactante. Estou feliz que provou ser, eu diria que é principalmente por isso que fomos atrás. Não estava pensando no filme como atriz até depois de alguns anos o desenvolvendo.”

O produto final é um filme que não é só abertamente feminista, mas essencialmente humano. O Ken, apesar de todos os seus esquemas de revolução dos bonecos, não é um vilão. Ele é um ingênuo frustrado tentando ganhar arbítrio para poder se entender. É claro, o mundo patriarcal que ele viu quando entrou em Los Angeles com a Barbie despertou ambições de um mundo “melhor” para ele e seus irmãos. Isso não é desculpa para a revolta dele, mas não o torna um vilão declarado, como algumas pessoas afirmam que é como o filme mostra os homens.

“Levamos a situação dele a sério. Tratamos com seriedade cada parte da jornada dele, até o momento em que ele ganha um hino e embarca na própria caminhada da autodescoberta”, diz Gerwig. “Acho que uma das coisas que Ryan levou para o papel foi um grau de empatia. E o que sempre dizíamos era que sim, é engraçado. Sim, há elementos nisso que são complexos e muitos momentos podem ser desconfortáveis, mas não há um vilão no filme, e não há uma pessoa que não mereça nossa simpatia ou empatia.”

No fim, como diz o filme, todos somos Kenough.

Fonte | Tradução & Adaptação: Equipe Margot Robbie Brasil